Como é conviver com a Síndrome de Asperger, com Paola Arqueros

Uma condição mental cada vez mais conhecida

Paola Arqueros é blogueira e escritora sobre uma condição que aos poucos foi ganhando repercussão entre as pessoas: a Síndrome de Asperger. Ela convive com isso e, nesta entrevista, te conta tudo sobre como é levá-la por dentro e aprender a ser feliz.

Você já se perguntou alguma vez do que se trata a Síndrome de Asperger? Ninguém melhor que uma pessoa que a tem para que te contar. Por isso mesmo, entrevistamos Paola Arqueros, responsável pelo blog Vivendo com a Síndrome de Asperger (http://viviendoconelsindromedeasperger.blogspot.com). Ela te contará tudo o que você quer saber sobre esta condição.

O que é a síndrome de Asperger

- Em primeiro lugar, como você explicaria o que é a Síndrome de Asperger para uma pessoa que a desconhece?

- É uma condição neurobiológica diversa a da maioria das pessoas, e que está dentro do espectro autista. Não é uma doença porque não se transmite nem tem cura. As pessoas Asperger têm uma maneira diversa de perceber o entorno e de processar a informação que nos chega dele.

Embora compartilhemos várias características, não temos por que ser nem parecer todos iguais, sobretudo os adultos, que vamos adquirindo condutas com o passar dos anos que vão marcando nossas diferenças como pessoas únicas e irrepetíveis, portanto, você pode estar perto de um adulto Asperger e nem sequer saber disso.

Quando somos adultos, nossas “diferenças” se percebem nas reações que temos diante de certas situações não afetam a maioria das pessoas, mas a nós sim. Não somos gênios, pois nosso QI pode ser de normal a alto, mas o que faz que nos destaquemos na área em que nos enfocamos, é que somos obcecados com nosso interesse restringido, chegando a ser extremamente perfeccionistas no que fazemos.

Ser Asperger é, para além de ser inteligente, não poder olhar nos olhos, carecer de empatia cognitiva, ter pouco filtro na hora de falar, ser literal ou ter rigidez mental. Ser Asperger é pensar, sentir e agir de outra perspectiva, o que não nos faz pior nem melhor pessoa, apenas diferentes, e estas diferenças não são negativas, embora poderia catalogá-las de enriquecedoras.

- Que tratamentos existem para esta síndrome e qual considera que é a melhor?

- Se tivéssemos que falar de tratamentos, penso que as terapias são muito importantes e de grande ajuda para o adequado desenvolvimento social de um aspie. Um terapeuta pode entregar à criança habilidades sociais que lhe permitam enfrentar seu entorno de uma melhor maneira.

Estas habilidades a desenvolver (fazer amigos, respeitar a vez da conversa, conseguir emprego, etc.), dependerão da idade do aspie e das diferentes etapas que esteja atravessando, pois à medida que vai crescendo, maiores e desconhecidas dificuldades vão aparecendo, por isso é muito importante que existam os diagnósticos precoces para que tanto estas crianças como sua família direta contem o mais rápido possível com a ajuda de um terapeuta que os possa guiar para enfrentar, de uma forma adequada, as dificuldades que o entorno vai apresentando.

Algo que se costuma recomendar para fazer que a pessoa seja mais flexível e não tão rígida mentalmente é a terapia cognitiva comportamental; e com relação às pessoas com problemas sensoriais muito marcantes necessitam intervenção terapêutica também. A terapia de integração sensorial é precisamente para ajudar a pessoa a evitar a sobrecarga sensorial e aprender a lidar com os estímulos; mas não existe um medicamento para o Asperger, o que pode sim ocorrer é que a pessoa com a síndrome tenha alguma comorbilidade (Ansiedade, Depressão, TDAH, entre outras) e em tais casos as pessoas Asperger podem precisar de medicação. Se alguém com a síndrome está recebendo algum medicamento, não é para o Asperger, é para alguma comorbilidade.

Como o Asperger afeta a vida diária

- Que inconvenientes traz o Asperger na cotidianeidade?

- Depende da situação na qual a gente se encontre. Eu explico: a pessoa Asperger costuma ter apegos a certas rotinas, e enquanto se encontrar cômoda com o que está realizando, no lugar que quiser e com quem desejar, não terá nenhum problema, mas no caso que essa rotina seja interrompida, sobretudo por um imprevisto, nossa reação não é a melhor; em uma criança aspie esse mal-estar ficará manifesto com choro e às vezes reações que, vistas pelos outros, podem interpretá-las mal como “birra”, no adulto talvez não seja manifestada publicamente dessa maneira, mas experimenta o mesmo mal-estar.

Outro assunto que pode nos trazer inconvenientes, devido à Hipersensibilidade Sensorial, são certos ruidos (furadeira, serra elétrica, claxon, etc.), certos cheiros, luzes, sabores e texturas. Nós que temos hipersensibilidade, temos dificuldade de interpretação e organização da informação captada pelos órgãos sensoriais do corpo, portanto percebemos de maneira exagerada certos estímulos
.

Imagine que uma pessoa com Síndrome de Asperger deve ir para algum lugar onde existem diversos sons, incluindo vozes de diferentes pessoas, cheiros diversos, alguém que toca alguma parte do nosso corpo por acaso, enfim, tudo isso e mais nos chega de maneira exacerbada, produzindo bastante mal-estar, que evidenciaremos de uma ou de outra forma, o que não será bem visto por quem nos rodeia.

Quando uma pessoa Asperger é submetida a situações angustiantes ou de estresse, experimenta muita ansiedade (um trâmite desconhecido, as mudanças de rotinas, o excesso de socialização, um superestímulo sensorial, ter um trabalho onde não se respeitam nossas características da síndrome, entre outras situações, podem ser motivos para experimentar a ansiedade). Esta ansiedade acrescentada no tempo pode gerar muitas dificuldades para nos desenvolver de uma maneira tranquila e segura nas atividades que devemos levar a cabo, desencadeando em mais medos e inseguranças, chegando, inclusive, às tão lamentáveis crises de pânico.

A pouca tolerância à frustração também pode nos "dar uma rasteira", isto se deve a que como nos esforçamos para que tudo saia como a gente planejou ou como deveria ser, não esperamos nem estamos preparados para que certas situações escapem das nossas mãos e não tenhamos o controle sobre elas; manifestando essa frustração, em algumas ocasiões, através de uma angústia excessiva ou reações de ira incontroláveis.

O fato de que haja situações que nos afetam muito mais que a maioria das pessoas e nos façam reagir de uma maneira, que para quem nos rodeia, não é “normal”, nos torna alvo fácil das críticas e zombarias, o que pode ir afetando nossa autoestima, dessa maneira, que podemos nos tornar pessoas inseguras, nos dificultando poder tomar decisões através de continuar sendo criticados muitas vezes, e isso, sem dúvida, traz muitos inconvenientes ao nosso cotidiano, pois nos sentimos constantemente pressionados a ser como o resto das pessoas para que não nos critiquem constantemente pelas nossas “diferenças”.

- Como se aprende a conviver com a síndrome?

- A primeira coisa que precisamos é saber que a gente tem esta condição, é por isso que na maioria dos meus artigos faço ênfase sobre a importância dos diagnósticos precoces. Se um adulto Asperger não sabe que tem a síndrome, viverá toda a sua vida confuso, sem entender por que se sente “diferente” ao resto das pessoas, e o que é pior, sofrendo em silêncio por não conseguir “encaixar” de maneira espontânea com seu entorno.

No meu caso, e no da maioria dos adultos, houve um “antes e um depois” do diagnóstico, sem dúvida saber que a gente tem esta síndrome é de muita utilidade, pois a partir dessa informação a gente pode repensar nossos objetivos na vida, mas de uma maneira consciente das capacidades e limitações que pode apresentar a pessoa Asperger, sabendo que há situações que a gente deve aprender a administrare em último caso evitar para o bem-estar próprio.

Penso que uma maneira de conviver com a síndrome é a gente mesmo se aceitar primeiro como pessoa Asperger, entender que há características desta condição que farão que fique difícil realizar certas atividades, mas que também há características que nos permitem conquistas muito significativas.

Serei sincera, no meu caso pessoal, foi bastante difícil de aceitar e ver o “lado bom” de ter esta síndroma, e penso que influiu o fato de ter sido diagnosticada tardiamente, portanto não recebi nenhum tipo de terapia que me ajudasse a enfrentar de uma melhor maneira as dificuldades que apareceram ao longo da minha vida; tive que aprender sozinha a “sobreviver”, por “instinto” ir buscando as estratégias que me ajudassem a não “ficar tão estranha”, e aceitar as constantes pressões dos outros para parecer “normal”.

Hoje em dia, trato de que meu entorno respeite minhas características como pessoa Asperger, e isso é o que me ajuda a estar tranquila e conviver de uma boa maneira com minha síndrome, e não pretender nunca mais ser uma “cópia ruim” de uma pessoa NT (neurotípica) porque no final a única coisa que consegui ao pretender sê-lo foi muita frustração e ansiedade. Hoje, no fim, me sinto LIVRE e me aceito como eu sou.

- Mudando de assunto, você é escritora e o Asperger tem um papel importante nos seus textos. Conte-nos um pouco mais sobre esta faceta literária.

- Desde uma idade muito precoce eu gostei da leitura, portanto, estive familiarizada com a escritura de forma indireta por muitos anos. Na minha mente sempre esteve a ideia de escrever um livro autobiográfico, mas sempre deixei isso em pausa, e só quando me diagnosticaram foi que recebi o impulso que precisava para contar minha história de vida como uma maneira de poder explicar de uma forma mais clara, através da minha experiência pessoal, o que significa viver com a Síndrome de Asperger.

Mas a minha incursão na escritura não só ficou ali, penso escrever outros livros sobre diferentes temáticas sociais através de histórias de vida reais, e mais adiante, talvez fictícias. Atualmente tenho um blog que nasceu da impotência de ver que muita gente ainda desconhece o que realmente é a Síndrome de Asperger e o que significa viver com ela.

Estando num grupo de adultos Asperger percebi que eu não era a única diagnosticada tardiamente, pelo contrário, foram muitos os que viveram grande parte da sua vida sem saber por que se sentiam “diferentes”. E o que é pior, que a grande maioria, pra não dizer todos, arrastou grandes dificuldades emocionais por não ter sido diagnosticada na infância; e por isso mesmo, não contamos com as terapias adequadas que nos permitissem crescer de uma maneira menos dolorosa por causa da pressão para querer “encaixar” e não saber como.

Além disso fixei como objetivo que nenhum pequeno no mundo cresça sem saber que tem uma síndrome por causa da desinformação de quem deve cuidar do seu bem-estar, razão pela qual tinha que fazer pública minhas experiências e de outras crianças também, pois ficando em silêncio não iria ajudar a reverter esta situação.

Isto foi o que me motivou a criar meu blog, no começo não foi fácil, pois embora não pareça, eu sou introvertida e insegura, mas minha vontade de comunicar aos outros o que vivemos e sofremos nós que que não recebemos um diagnóstico quando crianças, foi ainda maior, por isso decidi fazê-lo. Considero que é imperioso informar e educar a sociedade com relação à síndrome, e nada melhor do que alguém com a Síndrome de Asperger.

- Por último, você pode acrescentar o que considerar necessário.

- Um ponto que me deixa muito obcecada é fazer uma chamada de atenção aos profissionais encarregados de diagnosticar (neurologista, psiquiatra e psicólogo): Capacite-se, por favor, não fique só com o que ensinam na universidade, pois nem todas atualizaram seu programa, e estão muito atrasadas neste tema.

Leia Tony Attwood e Tania Marshall, e dessa maneira conseguirá identificar um paciente Asperger quando é adulto, ou entender que as mulheres não apresentamos a síndrome da mesma maneira que outras mulheres ou homens com essa condição. Entenda que quando se é adulto vão se adquirindo comportamentos aprendidos, que nos servem para “camuflar” a síndrome e desse jeito tratamos de “encaixar” com os outros, e que precisamente isto é o que faz difícil o diagnóstico, mas não significa que não apresentemos as características desta condição.

Esqueça de achar que um Asperger adulto não é capaz de ver o rosto do seu interlocutor ou que todos devem ter uma voz monótona, ou que tem que estar balançando na sua frente, ou que deve ter o mesmo “aspecto” que uma criança aspie. POR FAVOR se informe, eduque-se BEM a respeito.

Uma excelente maneira de aprender sobre esta síndrome, é se relacionando com os próprios adultos Asperger, tratar de entender esta condição a partir da visão que nós temos, tentar conhecer a maior quantidade de pessoas Asperger possível, para assim ter uma visão mais ampla desta síndrome e compreender que nenhum aspie adulto é igual a outro, mesmo compartilhando as mesmas características desta condição.

Faça isso por profissionalismo e por respeito ao seu paciente, que está desesperado buscando saber por que é “diferente” e não consegue “encaixar” com os outros; porque se você não é capaz de detectar a síndrome e só vê as comorbilidades, vai terminar medicando-o, mas não vai ajudar essa pessoa a saber o que realmente acontece com ela, e continuará sofrendo a incompreensão do seu entorno, portanto, seu trabalho como profissional não estará bem feito, e você quer ser um bom profissional, certo?

Asperger

Algumas terapias e técnicas que podem ajudar a melhorar a síndrome de Asperger

Esta entrevista foi magnífica e a Paola te mostrou um monte de coisas que podem te ajudar a te fazer sentir melhor se você sofre deste problema; também colaborarão para algum familiar ou amigo. Mas você também tem a opção de recorrer a algumas terapias e técnicas.

  • Combata a ansiedade. Os quadros de ansiedade, quando se manifestam, podem se tornar muito perigosos. Por isso, nada melhor que tratar de combater este problema de raiz o antes possível.
  • Pratique terapias alternativas. Algumas disciplinas como a ioga ou a prática de meditação podem te ajudar notavelmente com o Asperger. Vão te dar uma boa mão para estar mais sereno e concentrado em determinadas situações.
  • Realize um pouco de musicoterapia. A prática da musicoterapia pode ajudar muito para que as pessoas com Asperger se sintam mais estimuladas, sobretudo na infância. Deu excelentes resultados em crianças e também em adultos.

Você conhece alguém com Síndrome de Asperger?

Gráfico da enquete: Você conhece alguém com Síndrome de Asperger?

Sim, eu tenho

85/18

Sim, tenho alguém entre familiares/amigos

111/10

Não, mas sei do que se trata

21/15

Não, só agora conheci essa doença

8/15

O que você perguntaria para a Paola?




IMPORTANTE: A missão do "Como é conviver com a Síndrome de Asperger, com Paola Arqueros" é te ajudar a estar informado. NUNCA substitua a consulta médica.

9 comentários no "Como é conviver com a Síndrome de Asperger, com Paola Arqueros"

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Feia ...

tenho um amigo Aspie, gosto muito dele e sinto que é reciproco, no entanto, temos problemas em nos relacionar.Passamos um tempo bem e outro brigando. Eu não entendi até ele me explicar que tem a sindrome. Esse amigo já disse não saber lidar comigo e que não é ruim pois desperta sua curiosidade. Nossos desentendimentos se tornaram frequentes, segundo ele ocilo muito no modo de tratá-lo.Ele acha melhor nos distanciar e eu não quero, queria ajudá-lo,queria continuar amiga dele. Como posso fazê-lo.nao publique, por favor!

0

15 de Mai, 2016 - 10:04:38

Insira seu nome ...

Oi Paola, gostaria de saber se conhece alguém que ficou asperger por problemas ao nascer. E se conseguiu se desenvolver.

0

17 de Ago, 2016 - 15:48:56

Thays ...

Qual o profissional adequado para diagnosticar a Síndrome de Asperger? Psicólogo, Psicanalista, Terapeuta...

0

2 de Abr - 15:32:19

jeanine ...

estou dando aulas de catequese e na minha classe entrou um menino de 11 anos com a sindrome. gostaria de saber como fazer para a aula ser produtiva para todos e como falar com os demais sobre a forma de lidar com o novo coleguinha

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3 de Mai - 13:09:20

Marlon ...

ola Paola , tudo bem, eu sou Marlon e tenho essa sindrome, sendo que ainda nao consegui lhe bem com essa sindrome, to com bastante dificuldade no trabalho de como interagir e tambem em relacionamentos

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21 de Mai - 19:51:02

Elly Santos ...

Olá Paola. Descobri que na minha família tem uma pessoa com mais de 30 anos agora diagnosticada com a síndrome de Asperger,e com é um assunto muito novo, se tornou assustador pra todos nós seus familiares. Não sabemos como nos comunicar, o que muda no nosso relacionamento, temos medo de ferir por não ter nenhum traquejo sobre esse processo...Como pode ver, estou buscando ajuda de todas as maneiras possíveis e imagináveis, pois onde moramos não dispomos de profissional especializado, creio que pra tudo existe uma saída, e por sua experiência, lhe peço: Por favor, me ajude..

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5 de Jun - 20:07:05

Ana Paula ...

Eu estou gostando de um rapaz, ele tem a síndrome de asperger.

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30 de Jun - 01:15:09

InsiraJanaina Teixeira ...

Boa tarde.

Como os primos dessas crianças podem fazer para melhor se relacionar? Tenhob sobrinho Asper.

Como ensinar as pessoas que essa síndrome não é uma doença?

0

1 de Jul - 19:14:58

Janaina Teixeira ...

Como ensinar as pessoas que essa síndrome não é doença e que podemos conviver normalmente com crianças asper

0

1 de Jul - 19:16:46

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