A Síndrome de Asperger na infância

Síndrome de Asperger: detecção, educação e integração da criança aspie

Paola Arqueros é nossa colaboradora em tudo que se refere à Síndrome de Asperger e hoje nos conta tudo o que tem a ver com a infância. Educação, integração, diálogo... Apenas algumas das questões sobre as quais a Paola falará nesta entrevista.

Paola Arqueros é nossa colaboradora habitual em tudo o que tem a ver com a Síndrome de Asperger. Ela própria convive com ele e expõe suas experiências habitualmente no seu blog (http://viviendoconelsindromedeasperger.blogspot.com). Hoje vamos ver um assunto muito interessante: o Asperger e a infância. Sua detecção, a educação e tudo o que você tem que saber sobre isso, a seguir, com a Paola.

Asperger, educação e infância: tudo o que você tem que saber sobre o assunto

- O que você deve levar em conta para buscar um diagnóstico em uma criança que se suspeita que tem a Síndrome de Asperger?

- É preciso levar em conta que os primeiros sinais são notados aos 18 meses (embora nenhuma escala possa determinar ou diagnosticar a síndrome antes dos 4 anos), mas se tornam mais claros quando um garoto Asperger começa sua escolarização, porque é nessa etapa em que deve começar a se relacionar com outras pessoas fora do seu círculo familiar, portanto se torna mais evidente que esse pequeno não “encaixa” com os outros. Na área da comunicação têm dificuldades em fazer amigos, conversar com os outros, pois tendem a dar monólogos sobre seus temas de interesse.

Há crianças que mostram habilidades precoces, outras demoram em adquirir estas habilidades, mas também estão as que passam despercebidas por sua excessiva timidez, não evidenciando as características da síndrome como se esperam ser vistas, razão pela qual é preciso ter em mente que o perfil pode variar nas crianças Asperger, por esta razão é importante que se você suspeita que seu filho tem a SA, deve consultar um profissional com uma vasta experiência, pois há profissionais que só detectaram na criança o TDAH ou TOC, mas não foram capazes de reconhecer a Síndrome de Asperger nestes pequenos, ou o que é pior: não foram capazes de diferenciar uma comorbilidade da síndrome.

Para que um profissional se assuma como alguém com “experiência” no Asperger, deveria ter conhecido e trabalhado com muitos pacientes com esta síndrome, porque nenhum aspie é idêntico a outro, mesmo sendo crianças e ainda compartilhando as mesmas características da síndrome.

- Como ajudar uma criança Asperger a que seja mais independente?

- Basicamente para ajudar seu filho a ser mais independente e garantir que possa se desenvolver de uma melhor maneira nesta sociedade, seria preciso considerar os seguintes pontos:

  1. Observar, desde que é pequeno, que habilidades tem e quais são os seus interesses, enfocar sua educação de uma maneira em que se possa potencializar essas habilidades, e com base nisso promover a socialização, e ao fazê-lo poder criar nele uma sólida autoestima, ou seja, fazer que acredite em si mesmo e nas suas capacidades.
  2. Ensinar a fazer coisas por conta própria e formar neles um sentido de responsabilidad, por exemplo: organizar suas coisas, arumar a roupa, ir de compras ao supermercado, fazer trâmites, etc.
  3. Ensinar como ter conversas com outras pessoas e sobretudo regras sociais, também ensinar a identificar quando alguém não é confiável, etc.
  4. Ensinar a organizar seu tempo e a estabelecer prioridades, assim como ser um pouco mais flexível.

A família, uma vez mais, tem um papel muito importante como guia e fonte de confiança para aquelas crianças aspies que só agora começam a enfrentar este complexo mundo. As palavras de reforço nunca serão demais: “Você pode, você é capaz”, “é inteligente, aos poucos vai conseguir, não se desespere”, ”se não sabe fazer algo, eu vou te ensinar”, “se não conseguiu hoje, logo poderá”, “eu confio em que você vai conseguir, calma”, etc. Palavras que parecem tão simples, mas que influenciam tanto.

É preciso ter em mente que cada um conhece seu filho com suas dificuldades e fortalezas, e portanto, sabe em que aspecto da sua vida precisa de mais ajuda que o habitual ou não. Por isso mesmo, é importante também uma boa comunicação com seu filho, ir preparando-o desde pequeno a enfrentar diferentes situações, mas que não sejam imprevistas, mas com prévia antecipação, se certificar de dar a eles instruções com apoio visual, e lhe dar a confiança de que pergunte as vezes que forem necessárias se não compreendeu alguma indicação.

- Devem-se eliminar as estereotipias em uma criança com a Síndrome de Asperger?

- Primeiro deve-se ter claro o que são e para que servem as estereotipias motoras: basicamente são movimentos ou vozes repetitivas ou ritualizadas de forma involuntária (algumas vezes voluntariamente), que se repetem constantemente e que servem para lidar com o alto grau de estresse ou angústia que produz uma determinada situação, e em algumas pessoas as ajuda a organizar seus pensamentos. Em outras ocasiões, se manifestam em resposta de uma emoção positiva e de extremo agrado. Alguns exemplos de estereotipias: balanço do corpo, seja de pé, sentado ou deitado; tremor de mãos, aplaudir repetitivamente, entre outros movimentos.

As estereotipias são necessárias porque ajudam a canalizar nossa ansiedade e também a relaxar em algumas oportunidades, portanto NÃO se deve tratar de eliminá-las nas crianças nem proibir que as façam, a não ser que implique autoagressão. De fato, alguns dos adultos que fomos diagnosticados tardiamente já temos consciência disso e não fazemos nada para reprimir as estereotipias que ainda temos.

- Que estratégias podem ser utilizadas na aula com um aluno Asperger?
- Aqui vão alguns conselhos.

  1. Construir um horário no qual se mostre claramente a rotina. Apoiar-se em pictogramas ou em códigos visuais ajuda a estruturar seu dia. Os professores deveriam manter um ambiente o mais previsível possível e sem muitas surpresas; isto é porque as mudanças de rotina e as surpresas podem causar muita ansiedade em nós ao não saber como nos adaptarmos a elas.
  2. É necessário explicar ao aluno exatamente o que queremos dizer, particularmente quando isso implica se comportar numa sala de aula. Os professores devem dentro do possível usar uma linguagem clara e fácil de entender ao dar suas explicações ou instruções para as provas, evitando usar duplos sentidos ou metáforas, e caso sejam usados, devem se explicar para evitar mal-entendidos por parte dos estudantes. Isto é devido que tendemos a interpretar o que se nos diz de forma literal. Se for possível, se deveria apoiar a aula usando material audiovisual, pois muitas pessoas com Asperger têm uma forma de pensar que é muito visual. É preciso enfatizar aquilo que o professor quer em vez do que não quer (por exemplo: "por favor, silêncio", em vez de "não quero todo este barulho, obrigado").
  3. As crianças com SA poderiam precisar que as instruções que se dão ao grupo sejam repetidas a elas individualmente. Isto poderia ser feito pelo adulto que serve de apoio, a pessoa que dá as instruções ao grupo ou um colega.
  4. É possível dirigir determinadas áreas do currículo aos seus interesses. Sempre será útil usar qualquer interesse obsessivo como fonte de recompensa e motivação (por exemplo "se você terminar este trabalho às 10:30, então poderá estar 10 minutos trabalhando no seu projeto espacial”).
  5. Não obrigar o aluno a socializar se não lhe interessa, ou se está num ambiente estressante (muitos estímulos sensoriais). Se for possível, se deve ensinar como socializar corretamente, mas sem exercer pressão. Lembrar também que alguns jovens não querem fazer amigos ou passar seu tempo livre em companhia de outras pessoas. É necessário respeitar isso.
  6. Deixar que o aluno possa gravar as aulas e tomar fotos da lousa, já que para alguns de nós é difícil fazer várias coisas ao mesmo tempo; neste caso fazer anotações e prestar atenção à aula ao mesmo tempo.
  7. Se um estudante está estressado, o professor deveria permitir a ele sair da aula por alguns minutos para “recarregar energias”, em geral as pessoas com TEA se cansam rápido estudando um assunto, sobretudo se este assunto não está relacionado com os nossos interesses e se no ambiente há coisas que possam nos distrair. É importante contar com um adulto fora da aula, em quem o estudante confie, e que possa ficar alguns momentos com ele, sobretudo se estiver em crise. Exemplo: a psicopedagoga, a orientadora, a psicóloga, etc. Alguém que trabalhe no lugar e que sirva de apoio nesses momentos para o aluno Asperger.
  8. Criar apoios entre seus colegas pode dar lugar a um ambiente mais relaxado e tolerante. Seria possível criar um sistema de "colegas" ou inclusive usar o grupo de semelhantes para ajudar a ensinar uma série de estratégias de enfrentamento. Os "Círculos de Amigos" são uma forma de apoio que podem beneficiar tanto os estudantes com SA como seus colegas de classe.
  9. É preciso identificar as fontes sensoriais que alteram sua percepção e evitar expô-lo a essas fontes, reconhecendo que sua percepção é diferente hipo ou hiper-reativa.
  10. Defender o aluno dos possíveis valentões e daquelas pessoas que fazem bullying.
  11. Se o aluno receber um trabalho para fazer em grupo, este deveria ser para 2 pessoas ou 3 no máximo, já que num grupo maior podemos nos distrair e pode ser difícil coordenar com os outros. Neste ponto quero parar um pouco porque, com base na minha própria experiência quando fui estudante, posso dizer que não é conveniente mudar de grupo um aluno Asperger, pois é preciso considerar que se temos dificuldade em nos relacionar com os outros, com maior razão será estressante ter que estar submetido a mudanças que incluem novos colegas de trabalho grupal. Se o aluno Asperger se sente cômodo no grupo de trabalho em que foi incluído, se deve permitir a ele permanecer ali para cada novo trabalho grupal que deva realizar, para assim evitar adicionar situações angustiantes e que, mais do que um aporte, podem prejudicar no rendimento escolar.
  12. Algo muito importante e que você não deve ignorar: o professor deve ter uma boa comunicação com a mãe do aluno Asperger, pois é ela que conhece mais o seu filho, portanto pode fornecer informação importante de como agir em certas situações com ele, sobretudo nos seus momentos de crise, ou melhor ainda, como poder evitá-las.

- Por último, pode acrescentar o que considerar necessário.

- Isso é para os professores: reconhecer que você não sabe sobre un determinado assunto, neste caso a Síndrome de Asperger, não te torna menos profissional, o que te torna menos profissional é não estar disposto a aprender, a tirar méritos dos pais por não ter estudado numa universidade como você, mas que como pais, podem ter muito mais informação. Você como professor não tem que saber tudo, mas está na obrigação de reconhecer que existe informação que você não tem e precisa pedir ajuda a quem tenha, e nestes casos os pais sabem muito; não despreze sua ajuda nem se sinta menos por aceitar a colaboração que eles queiram te dar, garanto que se você se “abrir” para escutar o que um pai pode ensinar sobre esta síndrome, não sólo fará bem a esse aluno Asperger, mas para você será menos estressante enfrentar situações que desconhece se aceitar a ajuda deles.

O segredo é o trabalho em equipe, e digo isso com propriedade porque trabalhei por muitos anos como professora e sempre envolvi os pais no meu trabalho, e os resultados foram excelentes, ainda que no último ano tenha trabalhado numa escola de alto risco. Os resultados que obtive com meus alunos nas suas aprendizagens foram fabulosos, mas nada disso teria sido possível se eu não tivesse sido capaz de motivar os pais e envolvê-los na educação dos seus filhos. Pais sem seus estudos completos, pais com problemas sociais, mas aos quais fiz se sentir importantes na educação dos seus filhos. Quando a gente ama o que faz, os resultados sempre serão positivos.

Isto é para os adultos: você, que neste momento está lendo, e é pai ou mãe, eduque seus filhos para que no futuro não seja necessário lutar pela inclusão, porque cada pessoa contará com um espaço na sociedade, onde se respeite como pessoa e com suas características individuais. Você, que é pai e mãe, ensine o seu filho a respeitar a diversidade, a não tirar sarro daquele que é “diferente”, a integrar em seus jogos aquela criança que é “ruim” de bola, aquela criança que está sozinha num canto, ensine que jamais deve rir do mais fraco e jamais apoiar o abuso dos valentões, ensine que dar amor desinteressado é maavilhoso, que cuidar e respeitar os animais nos “enche o coração”, que ajudar quem precisa nos faz sentir bem. Pai e mãe, ensine, eduque com o exemplo, seu filho pode construir um futuro melhor, e depende de você.

Algumas ideias adicionais para estimular uma criança com Asperger

  • Com a musicoterapia. É um grande estímulo a musicoterapia quando se tem Asperger. E pode ser ótimo para a criança.
  • Com a meditação. Quer que seu filho experimente um pouco de meditação? Pode ser muito positivo para ele.
  • Com a leitura. Pode ser muito boa a leitura para ajudá-lo na sua concentração.

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